PRISMA 2020 explicado sem juridiquês
PRISMA não é uma regra burocrática inventada para complicar a sua qualificação. É uma lista do que precisa estar escrito para que outra pessoa consiga repetir a sua revisão e chegar ao mesmo conjunto de artigos. Só isso. Quando você entende o objetivo, os 27 itens param de parecer formulário e viram roteiro.
A versão em vigor é a PRISMA 2020, que substituiu a de 2009. Este texto explica o que ela pede, na ordem em que você vai escrever, e onde a maioria das revisões tropeça.
O que mudou de 2009 para 2020
- A busca agora precisa ser relatada de verdade: a estratégia completa de cada base, e não “foram consultadas as bases X e Y”.
- O fluxograma ganhou a coluna dos registros encontrados fora das bases (citações, sites, contato com autores).
- Entraram itens sobre automação: se uma ferramenta ajudou na triagem ou na extração, isso deve ser declarado — e quantas pessoas conferiram.
- Avaliação da certeza da evidência (GRADE, por exemplo) deixou de ser opcional no relato.
O fluxograma, em português claro
São quatro caixas, e o que trava todo mundo é que os números precisam fechar entre elas:
- Identificação. Quantos registros vieram de cada base, com a data da busca. Some tudo. Diga quantos eram duplicados e quantos sobraram.
- Triagem. Quantos títulos e resumos foram lidos e quantos foram excluídos. Aqui não é preciso justificar um a um.
- Elegibilidade. Quantos textos completos foram buscados, quantos você não conseguiu obter, e quantos foram excluídos com o motivo de cada exclusão. Esta é a caixa que mais volta com pedido de correção.
- Inclusão. Quantos estudos entraram na síntese — e, se houver, quantos relatórios correspondem a esses estudos (um mesmo estudo pode ter três publicações).
Dica que evita retrabalho: anote os números enquanto faz a busca, não no fim. Reconstituir “quantos vieram do PubMed em março” três meses depois é uma tarde perdida — e a busca já mudou de resultado.
Os itens que mais reprovam
- Item 7 — estratégia de busca. Precisa da string completa, com operadores e filtros, para pelo menos uma base, e o registro do que mudou nas outras. “Foram usados os descritores X e Y” não atende.
- Item 8 — processo de seleção. Quantas pessoas triaram, se trabalharam de forma independente, como resolveram divergência, e se usaram alguma ferramenta de automação.
- Item 9 — processo de extração. Mesma lógica: quem extraiu, quantos conferiram, com que formulário. Se você usou extração automática, declare e diga quem conferiu.
- Item 13 — métodos de síntese. Diga por que agrupou os estudos como agrupou — e, se não fez meta-análise, por quê.
- Item 24 — registro do protocolo. Número do PROSPERO ou equivalente, e o que mudou em relação ao protocolo. Mudar é permitido; não relatar a mudança, não.
E quando a IA entra no processo?
A PRISMA 2020 não proíbe automação — ela exige transparência. Na prática, isso vira uma ou duas frases no método:
A extração de dados foi realizada com apoio de ferramenta automatizada (ferdy), com formulário de extração definido previamente pelos autores. Todas as linhas extraídas foram conferidas contra o texto completo por dois revisores de forma independente; divergências foram resolvidas por consenso.
Repare no que a frase diz: a ferramenta fez o primeiro passe, pessoas conferiram. Essa é a forma honesta — e a que os periódicos aceitam. Uma revisão em que ninguém conferiu o que a máquina extraiu não é uma revisão sistemática.
Por onde começar amanhã
Baixe o checklist oficial da PRISMA 2020 e cole as 27 linhas numa planilha, com uma coluna para “onde está no meu texto”. Você vai preencher metade em cinco minutos e descobrir, nas outras, exatamente o que ainda falta escrever. É o jeito mais barato de evitar a lista de correções da banca.