Colunas livres: peça exatamente o dado que a sua revisão precisa (inclusive a citação)
Quase toda ferramenta de extração com IA oferece uma tabela pronta: título, ano, amostra, método, resultado. Serve para a primeira olhada e falha exatamente onde a sua revisão começa a ficar específica — quando você precisa saber se o estudo mediu o desfecho com o instrumento X, se a amostra era de escola pública, se os autores declararam conflito de interesse.
No ferdy a tabela não vem pronta: você escreve o que quer em cada coluna. Este texto mostra o que dá para fazer com isso, incluindo um uso que quase ninguém descobre sozinho — pedir que a própria IA traga o trecho do artigo que sustenta cada dado.
Uma coluna não é um rótulo, é uma instrução
A diferença está aí. “Amostra” é um rótulo e devolve qualquer coisa. Isto é uma instrução:
Número de participantes efetivamente analisados. Apenas o numeral. Se houver perdas de seguimento, registre o n final, não o recrutado. Se o estudo for qualitativo, registre o número de entrevistados.
Cada uma das suas colunas carrega um texto desses, aplicado igual a todos os artigos do projeto. É o mesmo formulário de extração que você preencheria no papel — só que executado sem variação entre o primeiro e o octogésimo artigo. (Se você ainda não montou o seu, comece por como escolher as colunas da tabela.)
Colunas que classificam, não só descrevem
O uso mais produtivo da extração não é montar a tabela final da revisão — é descobrir rápido quais artigos interessam e como eles se dividem. Para isso servem colunas de decisão, com resposta fechada:
- “O estudo mede aprendizagem por instrumento validado? Responda apenas: sim, não, ou não informado.”
- “Classifique o desenho em: ensaio randomizado, quase-experimental, coorte, transversal, qualitativo, revisão. Use exatamente um destes termos.”
- “A intervenção durou mais de quatro semanas? sim / não / não informado.”
- “O estudo foi feito no Brasil? sim / não.”
Com três colunas dessas, a planilha vira filtro: você ordena, agrupa e vê em dois minutos quantos artigos atendem ao seu critério — em vez de abrir oitenta PDFs para descobrir que trinta não serviam. É triagem de texto completo feita com o seu critério, escrito por você.
E é seu mesmo. O ferdy não sugere critério de inclusão, não propõe o que deve entrar na revisão e não opina sobre método — ele aplica, artigo por artigo, a regra que você escreveu. Essa fronteira é proposital: o critério vem do seu protocolo e da sua orientação, que é o que dá validade à revisão. A ferramenta executa; a decisão continua sendo de quem assina o trabalho.
O truque: peça o trecho que sustenta o dado
Como a instrução da coluna é livre, nada impede que uma delas peça a citação literal:
Copie a frase do artigo que sustenta o número da amostra, entre aspas, exatamente como está escrita. Se não houver frase explícita, escreva NA.
O resultado é uma coluna ao lado do dado com o texto de origem. Na hora de conferir, você lê a frase em vez de abrir o PDF e caçar o número. É o equivalente digital do “p. 5, Tabela 2” que o revisor anota à mão no formulário de extração.
Três cuidados, ditos com franqueza:
- O trecho vem como o modelo leu. O ferdy não confere, hoje, se aquela frase existe exatamente assim no PDF — a conferência é sua, como no resto da tabela. Uma frase plausível mas inexata é possível, então trate a coluna como ajuda para achar a informação, não como prova.
- Cada coluna de trecho gasta uma vaga das 14. Evidência para seis dados custaria doze colunas — na prática, peça trecho só para as duas ou três colunas que mais importam (normalmente o desfecho principal e a amostra).
- Peça NA explicitamente. Sem isso, a tendência é preencher com alguma coisa. Lacuna visível é melhor que texto inventado.
Como isso se compara com as outras ferramentas
Dados de setembro de 2026; confirme na página de cada uma, porque mudam — o panorama completo está no comparativo das ferramentas de revisão sistemática.
- Elicit — permite colunas personalizadas, mas o número depende do plano: relatos vão de 2 colunas no gratuito a 20 no plano Pro e até 40 no corporativo. Em compensação, ele traz a citação da frase de origem de forma automática, em todos os dados — é o desenho dele, e é bom (mais sobre isso em quanto custa cada modelo).
- SciSpace — também permite tabela personalizada, com limites por plano; o forte dele é conversar com um artigo por vez.
- Covidence — o formulário de extração é totalmente configurável e feito para dupla checagem, mas quem preenche são duas pessoas, não a máquina.
- Rayyan — não extrai dados: a força dele é a triagem por título e resumo.
- ferdy — 14 colunas em qualquer pacote, sem plano que libere mais ou menos, cada uma com instrução livre. A citação não é automática: vem se você pedir, na coluna que quiser.
A diferença de fundo é de desenho, e vale entender antes de escolher: onde os campos são do fornecedor, a citação vem de brinde e a personalização é vendida por plano; onde as colunas são suas, você decide o que extrair, em que formato e se quer citação — e ninguém cobra a mais por isso.
Três conjuntos para copiar
Para classificar rápido (5 colunas): desenho do estudo (vocabulário fechado) · país · população · atende ao critério principal (sim/não/não informado) · motivo em uma frase.
Para revisão de intervenção (8 colunas): país · desenho · participantes · n analisado · intervenção com duração · comparador · desfecho e instrumento · resultado principal com a estatística.
Para revisão de escopo (6 colunas): objetivo · método de coleta · contexto · principal achado · lacuna apontada pelos autores · trecho que sustenta o achado.
Em todos os casos, o teste que vale é o mesmo: rode cinco artigos que você já leu e compare o que saiu com o que você extrairia. Dez minutos ali evitam uma segunda rodada em oitenta.